Marrocos lidera debate na União Africana sobre o uso responsável da IA para promover desenvolvimento, paz e segurança no continente.
Durante a Reunião Ministerial do Conselho de Paz e Segurança da União Africana (CPS-UA), presidida por Marrocos, o ministro marroquino das Relações Exteriores, Nasser Bourita, defendeu a criação de uma Inteligência Artificial (IA) africana ética, responsável e adaptada às realidades do continente. A proposta visa posicionar África como actor relevante na governança global da IA, promovendo desenvolvimento, paz e segurança.
Uma IA Africana para o Desenvolvimento
No discurso proferido por videoconferência, Bourita destacou que a IA deve ser “pela África e para a África”, alinhada aos valores e necessidades do continente. Sob a liderança do Rei Mohammed VI, Marrocos comprometeu-se a impulsionar a inovação em IA, com iniciativas como a criação do primeiro centro africano da UNESCO para IA, em Rabat, e um programa nacional que introduz crianças à tecnologia.
O ministro alertou para os desafios da IA, que, se mal utilizada, pode amplificar desigualdades e ameaçar a estabilidade. Dados apresentados na reunião revelam um aumento de 900% em vídeos deepfake desde 2019, 300% em ataques cibernéticos com IA entre 2019 e 2022 e o uso de drones autónomos por 40% dos grupos terroristas. Além disso, 47 países sofreram campanhas de desinformação em 2023, afectando processos democráticos.
Oportunidades e Desafios Económicos
A IA também foi apresentada como uma oportunidade económica significativa. Até 2030, estima-se que a tecnologia contribua com 15,7 triliões de dólares para a economia global, aumente a produção agrícola em até 15% e acelere o crescimento de alguns países em 40%. Contudo, África enfrenta barreiras estruturais: 60% da população não tem acesso à internet, apenas 2% dos dados usados em IA estão no continente e somente 1% dos especialistas globais em IA são africanos.
Para superar essas lacunas, Marrocos propôs a criação de um Fundo Africano para IA, uma estratégia pan-africana de gestão de dados e um programa de formação em massa para desenvolver talentos africanos na área. O país já implementa uma estratégia que visa formar 100 mil profissionais por ano.
Propostas para uma Acção Coordenada
Bourita apelou a uma acção colectiva para garantir que a IA seja uma ferramenta de progresso. Entre as propostas, destacam-se a criação de uma rede africana de centros nacionais de IA e um painel de especialistas para apoiar a estratégia continental. Marrocos também co-fundou o Grupo de Amigos da IA para o Desenvolvimento Sustentável, que reúne mais de 70 países, e participou da adopção das primeiras resoluções da ONU sobre IA.
“A IA não vai esperar que estejamos prontos. Ela já está aqui, redesenhando o equilíbrio de poder. A escolha é simples: ou nos unimos para dominar essa transformação, ou sofreremos as consequências”, afirmou Bourita, citando o Rei Mohammed VI.
Relevância para Angola e África
A discussão sobre uma IA ética e soberana é especialmente relevante para Angola, que busca expandir o acesso às tecnologias digitais e promover a inovação. A proposta da UA reforça a necessidade de políticas coordenadas para que o continente aproveite os benefícios da IA, ao mesmo tempo que protege sua soberania e segurança. NJ
