Num cenário internacional marcado pela incerteza — agravada pelo conflito no Médio Oriente e pela volatilidade dos mercados energéticos —, Angola encontra-se numa encruzilhada económica delicada. Segundo o mais recente Africa Economic Update, divulgado pelo Banco Mundial, o país beneficia da actual alta dos preços do petróleo, mas continua vulnerável a choques externos devido a desequilíbrios macroeconómicos estruturais.
Como um dos maiores exportadores líquidos de crude em África, Luanda vê nas receitas petrolíferas uma tábua de salvação momentânea. A exposição energética angolana equivale a cerca de -27% do Produto Interno Bruto (PIB), o que, em teoria, reforça as contas externas e fiscais num contexto global de procura por segurança energética. Contudo, esse ganho conjuntural esconde rachaduras profundas.
O relatório alerta que as necessidades de financiamento externo do país atingem 18% do PIB, revelando uma forte dependência de fluxos externos para manter a balança de pagamentos equilibrada. Ao mesmo tempo, a inflação mantém-se elevada: 13,4%, mais do dobro da média da África Subsaariana, estimada em 5,1%. Este cenário pressiona o poder de compra das famílias e complica os esforços de estabilização monetária.
Apesar disso, há motivos para cautela moderada. As reservas internacionais cobrem actualmente cerca de 7,1 meses de importações — um “colchão” que oferece alguma margem para absorver choques de curto prazo e sustentar a estabilidade cambial. No entanto, o Banco Mundial sublinha que essa protecção só será duradoura se houver disciplina na gestão das contas externas e se as exportações petrolíferas se mantiverem robustas.
Nas finanças públicas, o retrato é igualmente ambivalente. As receitas do Estado correspondem a 52,3% do PIB — um dos níveis mais altos da região —, mas estão excessivamente concentradas no sector petrolífero. Paralelamente, o défice fiscal situa-se em -4,1% do PIB, reflectindo limitações na capacidade de expansão orçamental e a necessidade urgente de consolidação das contas públicas.
No mercado cambial, o kwanza seguiu a tendência regional de depreciação em 2024, com uma desvalorização estimada entre 5% e 10%. Embora longe dos colapsos observados em países como Sudão do Sul ou Nigéria — onde as moedas perderam mais de 40% do seu valor —, a moeda nacional ainda enfrenta pressões. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Haver Analytics indicam, contudo, um abrandamento recente dessa tendência.
Quanto à política monetária, Angola adoptou uma postura de flexibilização “cautelosa”. Com a taxa de juro directora fixada em 17,5%, o país posiciona-se num grupo intermédio na África Subsaariana: menos restritivo do que Nigéria (26,5%) ou Malawi (24%), mas mais conservador do que Gana ou Gâmbia, que já avançaram com cortes mais agressivos.
Em síntese, o diagnóstico do Banco Mundial é claro: Angola dispõe de instrumentos para resistir à tempestade imediata, mas a sua resiliência a médio prazo dependerá da capacidade de diversificar a economia, reduzir a dependência do petróleo e fortalecer as instituições económicas — passos essenciais para transformar ganhos conjunturais em desenvolvimento sustentável.
Fonte: O Telegrama
