A TAAG – Linhas Aéreas de Angola continua a enfrentar graves desafios financeiros, com prejuízos que ascenderam a 134,212 mil milhões de kwanzas no exercício de 2024, representando um aumento significativo face aos 90,087 mil milhões registados no período anterior. Estes números equivalem a uma perda diária de cerca de 367 milhões de kwanzas, num ano marcado pela recuperação global do tráfego aéreo e das receitas no sector da aviação.
Apesar das sucessivas alterações na administração e das injecções de capital pelo Estado, a companhia de bandeira angolana mantém uma situação delicada, com os capitais próprios a caírem para terreno negativo, atingindo os -21,436 mil milhões de kwanzas. O relatório de contas, divulgado apenas na semana passada, viola os prazos estipulados pela Lei das Sociedades Comerciais, que obriga a administração a propor ao accionista único (o Estado angolano) a dissolução da empresa ou um aumento de capital social, com a segunda opção a ser implementada no prazo de 60 dias após deliberação.
A administração da TAAG defende a continuidade das operações, argumentando que, apesar dos riscos e incertezas no contexto actual, adopta pressupostos que garantem a sustentabilidade. No entanto, o auditor independente, a firma KPMG, expressa reservas significativas quanto à capacidade da empresa em manter-se operacional. Uma das principais preocupações é o facto de o passivo corrente exceder o activo corrente em 181,065 mil milhões de kwanzas, com o passivo total a crescer 3% para 431,943 mil milhões. “Estas condições indicam a existência de uma incerteza material que pode lançar dúvidas significativas sobre a capacidade da entidade em continuar as suas actividades”, refere o relatório da KPMG.
Divergências em Inventários e Impacto de Ciberataque
O relatório destaca ainda divergências notáveis entre os valores contabilísticos de existências e os inventários físicos realizados, incluindo discrepâncias nos métodos de valorização e a falta de detalhes sobre 19,369 mil milhões de kwanzas em existências em trânsito. O auditor não obteve informações suficientes para validar um montante de 38,137 mil milhões de kwanzas na rubrica de existências, o que impede uma avaliação completa dos impactos nos custos operacionais e nos resultados não operacionais.
A TAAG atribui estas lacunas a um ciberataque sofrido no ano anterior, que afectou gravemente a infraestrutura tecnológica, particularmente os sistemas de contabilidade e gestão financeira. Apesar disso, a administração assegura que não foram identificados impactos materiais nos saldos e fluxos financeiros apresentados nas demonstrações.
Aumento nas Remunerações e Apelo a Investigação
Paradoxalmente, num contexto de prejuízos crescentes, as remunerações do pessoal da TAAG aumentaram 50,93%, totalizando 2,912 mil milhões de kwanzas. Este incremento ocorre enquanto a companhia depende de apoios estatais para evitar a falência.
Pedro Castro, especialista em aviação e aeroportos, classifica as divergências em inventários como um “sinal de alerta para má governação operacional”, associando-as a riscos de perdas ocultas relacionadas com a falta de controlo em peças e stocks de alto valor, essenciais para a segurança. Castro defende a abertura de uma investigação independente para apurar estas irregularidades.
O especialista sublinha que as advertências do auditor não devem ser ignoradas, pois reflectem a percepção de credores, como bancos e empresas de leasing, que exigem garantias estatais mais robustas devido ao risco elevado. “A TAAG está a adquirir novos aviões e a expandir rotas, o que implica custos imediatos elevados em moeda estrangeira, agravando a exposição cambial e a pressão sobre o caixa”, observa Castro. Ele alerta que, sem uma reestruturação profunda, esta estratégia de crescimento pode amplificar os prejuízos, transferindo mais riscos para o Estado e os contribuintes angolanos.
Em 2023, a TAAG beneficiou de um aumento de capital de 120 mil milhões de kwanzas, parte de um total de 169 mil milhões distribuídos a oito empresas estatais. Castro enfatiza que a companhia precisa de recapitalização interna para evitar dependência contínua de fundos públicos, transformando a frota em um factor de perdas em vez de lucros.
Fonte: Valor Económico
