Mais de dois anos após a consignação das obras à China National Chemical Engineering Company (CNCEC), a construção da Refinaria do Lobito projeto estratégico para a autossuficiência energética de Angola avança com apenas 20% de execução física, apesar de já ter consumido mais de USD 2 mil milhões em investimentos. Desse montante, USD 1,26 mil milhões foram aplicados diretamente na obra, enquanto outros USD 1 mil milhões financiaram infraestruturas de apoio, como estradas para carga pesada, o terminal marítimo e terraplanagem do local.
Apesar dos desafios, o Governo angolano descarta a hipótese de paralisação das obras, mas admite que a falta de parceiros internacionais pode atrasar a conclusão do projeto para além de 2027. Atualmente, a empreitada, batizada como Sonaref, é 100% financiada pela SONANGOL, contrariando o modelo inicial que previa parcerias multilaterais.
Obra avança, mas investidores ainda não chegaram
Durante uma visita de trabalho à província de Benguela, o ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino de Azevedo, garantiu que o ritmo das obras continua firme, com 2.700 trabalhadores em território angolano e outros 600 na China, onde são fabricados os equipamentos essenciais. “Penso não haver risco de paralisação”, afirmou.
O governante reconheceu, contudo, que o pior cenário possível seria um atraso na entrega da refinaria. Ainda assim, reforçou que o foco permanece na meta de produção: 200 mil barris de petróleo por dia, com capacidade de transformação de derivados como gasóleo, jet-A1 (para aviação) e HFO (fuel oil para navios).
Quanto a incentivos para atrair investidores, o ministro foi categórico: “Eles já existem no quadro do contrato de investimento.” Segundo ele, o Governo reviu prazos e cortou custos, mas manteve o “fator qualidade” como prioridade.
Especialistas alertam: falta de parceiros ameaça viabilidade
Apesar do otimismo governamental, analistas do setor energético têm vindo a alertar há mais de 15 anos que a ausência de parcerias internacionais é um obstáculo estrutural ao sucesso do projeto. “Trata-se de um investimento de alto risco e alto retorno, que exige alianças globais para garantir rentabilidade”, afirmou Filomeno Vieira Lopes, economista e ex-técnico da SONANGOL.
José Severino, presidente da Associação Industrial Angolana (AIA), reforçou a crítica: “O Governo precisa demonstrar que este é um bom negócio para potenciais investidores. O mercado do petróleo mudou hoje, o foco está nas energias renováveis. Como se diz por aí, isto está duro.”
Severino lembrou ainda que países vizinhos, como a Zâmbia que chegou a considerar uma participação de 15% no projeto e a República Democrática do Congo (RDC), grande consumidora de derivados petrolíferos, não estão envolvidos na iniciativa, apesar de serem potenciais mercados para os produtos da refinaria.
Sem gasolina na fase inicial mas com estratégia integrada
Um ponto curioso revelado durante a visita foi que a Refinaria do Lobito começará a operar sem produzir gasolina, justamente o derivado que tem faltado em Benguela nos últimos meses. Em vez disso, a unidade produzirá nafta, matéria-prima que será enviada para a Refinaria de Luanda para ser transformada em gasolina.
“É a prova de que a indústria, atualmente, trabalha como um todo”, explicou Sebastião Gaspar Martins, presidente do Conselho de Administração da SONANGOL. Ele destacou que a primeira fase da operação estará focada na destilação atmosférica, com produção inicial de HFO, gasóleo e jet-A1. A produção local de gasolina só virá numa fase posterior.
Martins sublinhou ainda que o objetivo imediato não é exportar, mas sim garantir a autonomia energética de Angola. “Mantemos uma refinaria de alta conversão, o mais importante. Depois, sim, poderemos pensar nos mercados da Zâmbia e de outros países o que gerará receitas adicionais.”
Custo final cai pela metade, mas desafios persistem
Idealizada há mais de 20 anos, a Refinaria do Lobito viu seu orçamento ser reduzido de USD 12,6 mil milhões para USD 6,3 mil milhões metade do montante inicialmente projetado. Essa revisão, segundo fontes oficiais, reflete ganhos de eficiência e renegociações contratuais.
Fonte: Novo Jornal
