Pelo terceiro ano consecutivo, a Sonangol optou por não lançar concurso público para a importação de combustíveis em Angola, prorrogando os contratos vigentes com a BP Oil International — decisão que reacende o debate sobre transparência e concorrência no sector energético nacional, apesar das justificativas ligadas à instabilidade geopolítica e volatilidade dos mercados internacionais.
A Sonangol voltou a “engavetar” o concurso público destinado à selecção de empresas fornecedoras de gasolina e gasóleo em Angola. O procedimento, que deveria ter sido lançado em Janeiro de 2025 para entrada em vigor em Março desse ano, não foi realizado — repetindo o cenário de 2024 e 2023. Assim, a BP Oil International continua como operadora-chave na importação de combustíveis refinados, num modelo baseado na extensão de contratos já existentes.
Em resposta ao Valor Económico, a petrolífera estatal defendeu a medida como parte de uma “abordagem prudente e estratégica”, motivada pela persistente volatilidade nos mercados energéticos globais, pelos constrangimentos logísticos e pelos impactos de conflitos geopolíticos — desde a guerra na Ucrânia até às recentes tensões no Médio Oriente. Segundo a empresa, manter os acordos em curso permite garantir a continuidade do abastecimento nacional, evitando rupturas que poderiam gerar riscos económicos e sociais.
A Sonangol sublinha ainda que esta opção assegura “previsibilidade operacional” e “condições comerciais estáveis”, ao mesmo tempo que facilita uma transição faseada no segmento downstream — incluindo o reforço da capacidade de refinação local, um pilar central da estratégia de soberania energética do país.
Apesar disso, a empresa reafirma que os concursos públicos continuam a ser o mecanismo preferencial de contratação, sendo as prorrogações aplicadas apenas “de forma criteriosa” e em contextos excepcionais.

Do monopólio à abertura condicionada

Durante anos, o mercado angolano de importação de combustíveis foi dominado quase em exclusivo pela Trafigura, numa posição próxima do monopólio. A entrada da britânica Vitol em 2015 marcou o início de uma ligeira abertura, com a empresa a assumir a importação de gasolina.
Foi em 2018 que a Sonangol anunciou formalmente a liberalização do sector, realizando o primeiro concurso público transparente. Nesse processo, a Glencore Energy UK ficou responsável pelo gasóleo e gasóleo marinho, enquanto a Total Oil Trading assegurou o fornecimento de gasolina.
Desde então, o calendário de concursos tem sido irregular. Em 2019, a Trafigura regressou ao mercado após vencer novo concurso para o gasóleo, substituindo a Glencore. Já em 2020, registou-se o primeiro interregno: a Sonangol justificou a ausência de concurso com a escassez de linhas de crédito provocada pela pandemia de covid-19.
Agora, em 2026, o modelo volta a privilegiar a continuidade contratual em vez da competição aberta — uma prática que, embora tecnicamente justificável, levanta questões legítimas sobre governança, diversificação de fornecedores e equilíbrio entre segurança energética e transparência institucional.
Fonte: Valor Económico

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