Mais de metade dos proveitos da petrolífera nacional (53%) proveio de participações na Angola LNG, Millennium BCP e Galp. Actividades nucleares de exploração petrolífera registam margens apertadas face aos custos operacionais, enquanto unidade de negócios não nucleares acumula prejuízos de 707 mil milhões Kz em cinco anos. Conselho Fiscal aponta riscos de liquidez e recomenda aceleração do ProPriv.
A Sonangol encerrou o exercício de 2025 com um lucro líquido de 862,4 mil milhões de kwanzas (cerca de 940 milhões de dólares), mas os números revelam uma realidade que merece a atenção do cidadão angolano: o petróleo “clássico” deixou de ser o principal motor de rentabilidade da empresa. Segundo o relatório anual de gestão, a que a nossa redacção teve acesso, 53% deste lucro — ou seja, 459,4 mil milhões Kz — resultou de dividendos de participações em empresas como a Angola LNG, o banco português Millennium BCP e a Galp.
Esta dependência de receitas externas ao núcleo duro da actividade petrolífera levanta questões estratégicas sobre o futuro da maior empresa do País, sobretudo num contexto em que o Governo tem envidado esforços para recentrar a Sonangol na sua missão essencial: explorar, produzir e valorizar os recursos energéticos nacionais.
Onde está, afinal, o valor?
De acordo com o documento oficial, as três participações que mais contribuíram para os resultados positivos foram:
- Angola LNG (22% do capital detido pela Sonangol): gerou 314.064 milhões Kz em dividendos;
- Millennium BCP (19,49% de participação): entregou 91.527 milhões Kz;
- Galp (participação indirecta de 16,9% via holding Esperaza): contribuiu com 53.847 milhões Kz.
Estes valores representam uma melhoria face a 2024, reflectindo a recuperação dos mercados energéticos e financeiros internacionais. Contudo, importa contextualizar: estes proveitos não resultam da actividade operacional directa da Sonangol em Angola, mas sim de investimentos financeiros e parcerias no exterior.
Negócios não nucleares: o outro lado da moeda
Se alargarmos a análise ao conjunto das participações da Sonangol fora do sector petrolífero — que inclui empresas como a Clínica Girassol, Sonils, Sonair, Paenal, Petromar e Mota Engil Angola, entre outras 65 participações listadas no relatório —, o cenário inverte-se. Só em 2025, este segmento registou um prejuízo de 175,2 mil milhões Kz, agravando uma trajectória negativa que, nos últimos cinco anos, já soma perdas de 707,5 mil milhões Kz.
Este desequilíbrio foi, aliás, um dos motivos que levou ao lançamento do Programa de Privatizações (ProPriv), em 2019, com o objectivo de reduzir a intervenção directa do Estado na economia e, simultaneamente, aliviar a pressão financeira sobre a Sonangol. Até ao momento, foram alienadas 29 participações no âmbito do programa, e para 2026 está prevista a privatização de 15% da Unitel, empresa na qual a petrolífera detém 75% do capital.
Petróleo: custos elevados comprimem margens
Apesar de a actividade de “Exploração e Produção” representar o maior volume de negócios da Sonangol — 4 biliões Kz em 2025 —, o lucro final deste segmento foi de apenas 97,1 mil milhões Kz. O Conselho Fiscal da empresa justifica este resultado com a “elevada carga de custos operacionais, amortizações e impostos”.
Em contrapartida, o segmento “Corporate” (que agrega ganhos financeiros, dividendos e resultados de participadas) foi o principal gerador de valor, com um resultado positivo de 949,3 mil milhões Kz. Já a área de “Gás e energias renováveis” destacou-se como a mais rentável em termos operacionais, com um lucro líquido de 374,6 mil milhões Kz.
Por outro lado, a “Refinação e distribuição” continua a ser um ponto crítico, com um prejuízo combinado de 820,3 mil milhões Kz em 2025. “Refinar petróleo, distribuir e comercializar custa mais à empresa do que a receita que gera, indicando um desequilíbrio estrutural”, alerta o Conselho Fiscal no seu parecer às contas.
Riscos e recomendações: o caminho a seguir
O órgão de fiscalização da Sonangol identifica três riscos concretos que merecem atenção redobrada por parte dos gestores e, por extensão, da sociedade angolana:
- Liquidez sob pressão: a cobertura de caixa garante apenas 18% das necessidades imediatas;
- Dependência de financiamento externo: a empresa recorre cada vez mais a empréstimos para equilibrar as contas;
- Exposição a passivos de longo prazo: que comprimem o valor real da empresa e limitam a sua capacidade de investimento.
Perante este cenário, o Conselho Fiscal apresentou 21 recomendações para reforçar a gestão da petrolífera. Entre as medidas propostas, destacam-se:
- Aceleração do plano de alienação de activos não estratégicos;
- Reforço do sistema de controlo interno e definição de Indicadores-Chave de Desempenho (KPIs);
- Aplicação de um plano de contingência de liquidez para elevar o rácio de cobertura de caixa;
- Saneamento e cobrança acelerada de contas a receber, incluindo os 8,2 biliões Kz devidos por terceiros e pelo Estado;
- Renegociação de empréstimos de curto prazo para maturidades mais longas;
- Estudo de redimensionamento da força de trabalho, de modo a alinhar a estrutura de custos fixos à realidade das receitas operacionais.
Fonte: Jornal Expansão
