As seis empresas públicas de comunicação social receberam 39,2 mil milhões de kwanzas em subsídios operacionais em 2025, um aumento de 14,5% face aos 34,2 mil milhões do ano anterior, mas acumularam prejuízos líquidos de 12,7 mil milhões de kwanzas, mais 5,5% do que em 2024. Os dados constam dos relatórios anuais de gestão divulgados pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE).

Entre 2020 e 2025, os cofres públicos injectaram 206,8 mil milhões de kwanzas no sector, enquanto os prejuízos acumulados chegaram a 49,5 mil milhões. Apenas duas empresas fecharam o exercício com lucro: a Rádio Nacional de Angola (RNA), com 275 milhões de kwanzas, e a Média Nova, com 143 milhões.

A Televisão Pública de Angola (TPA) voltou a liderar o ranking dos prejuízos, com 10,4 mil milhões de kwanzas negativos — um agravamento de 37,8% em relação aos 7,5 mil milhões de 2024. Seguem-se a Edições Novembro (1,5 mil milhões), a Tv Zimbo (761 milhões) e a Angop (508 milhões).

Na TPA, os proveitos chegaram a 16,6 mil milhões de kwanzas, dos quais 13,3 mil milhões (cerca de 80%) vieram de subsídios. As despesas operacionais atingiram 24,6 mil milhões. O auditor independente destacou a dependência de fundos públicos e a redução das disponibilidades em caixa, de 4,9 mil milhões em 2024 para apenas 786 milhões no final de 2025. A empresa empregava 2.028 trabalhadores, a maioria em Luanda, e o relatório de gestão não apresentou dados de audiência.

Na Edições Novembro, responsável pelo Jornal de Angola e outros títulos, 86,4% das receitas (7,0 mil milhões em 8,1 mil milhões totais) vieram do Estado. Os custos com 964 trabalhadores representaram quase 69% das despesas operacionais. As vendas de jornais ficaram longe das metas: 1,3 milhões de exemplares contra 3,1 milhões previstos.

Problemas de gestão e controlo

A Tv Zimbo, sob comissão de gestão desde 2020 e na lista de privatizações até ao final de 2026, enfrentou reservas do auditor sobre a regularização de activos recuperados judicialmente. O relatório foi publicado sem o parecer do Conselho Fiscal. A Angop reconheceu constrangimentos financeiros e de infraestruturas; o auditor levantou dúvidas sobre 2,3 mil milhões de kwanzas por receber e o Estado só entregou 4.500 milhões dos 15.000 milhões previstos de capital social. Mesmo assim, a empresa adquiriu quatro viaturas por 284 milhões de kwanzas (média de 71 milhões cada).

A RNA, apesar do lucro, gerou reservas do auditor sobre saldos e dívidas antigas com a Administração Geral Tributária. O Conselho Fiscal recomendou reforço urgente de liquidez e controlo interno. A Média Nova reportou aumento de proveitos, mas o relatório não anexou os pareceres obrigatórios do Conselho Fiscal e do auditor.

No final de 2025, o sector empregava cerca de 6.000 trabalhadores. Com excepção da Edições Novembro, a maioria dos relatórios continua a omitir dados concretos sobre audiências, programas mais vistos ou ouvidos e número de assinantes, o que limita a análise da eficiência e da ligação ao mercado.

Sérgio Calundungo, consultor e coordenador do Observatório Político e Social de Angola (OPSA), considera que os números “mostram uma dependência insustentável dos fundos públicos e baixa eficiência económica”. “É necessária uma revisão do modelo de financiamento, para evitar que os contribuintes continuem a sustentar estruturas ineficazes e sem retorno social proporcional”, afirmou. Para o especialista, a comunicação estatal é muitas vezes vista como parcial e politizada, o que limita o acesso da população a informação plural e independente.

Fonte: Jornal Expansão 

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