África continua a ocupar uma posição marginal na gestão global de capitais soberanos, detendo menos de 1% dos activos mundiais, segundo o Sovereign Wealth Funds Report 2026. O relatório, apresentado na última sexta-feira em Madrid pelo Center for the Governance of Change da IE University em parceria com a ICEX-Invest in Spain, revela que, apesar do crescimento global do sector, o continente africano — onde Angola se destaca com activos de 4,1 mil milhões de dólares — enfrenta desafios estruturais ligados à volatilidade das matérias-primas e à necessidade de financiamento público imediato.

O estudo, que monitorizou a actividade de 109 fundos entre Julho de 2024 e Dezembro de 2025, indica que o património combinado destes veículos ultrapassou, pela primeira vez, a barreira dos 15,1 biliões de dólares, um crescimento de 14%. Contudo, a distribuição é profundamente desigual: a Ásia-Pacífico e o Médio Oriente concentram 79% deste capital.

A Europa detém 16% da quota global, um valor largamente sustentado pelo fundo norueguês Government Pension Fund Global (GPFG), que gere sozinho 85% do património soberano do continente europeu. No fundo da tabela, surge África, com uma fatia inferior a 1%, equivalente a pouco mais de 150 mil milhões de dólares repartidos por todo o continente.

O ranking global de fundos soberanos continua a ser liderado por potências ocidentais e asiáticas:

  • GPFG (Noruega): 2,1 biliões de dólares (superior ao PIB de Espanha).

  • SAFE (China): 1,98 biliões de dólares.

  • CIC (China): 1,57 biliões de dólares.

  • ADIA (EAU): 1,18 biliões de dólares.

  • KIA (Kuwait): 1,002 biliões de dólares.

O Panorama em África e a Posição de Angola

Nenhum fundo africano integra o “top 5” mundial. O Libyan Investment Authority (Líbia) permanece como o único representante do continente entre os vinte maiores do mundo. Na África Subsariana, destacam-se:

  1. Pula Fund (Botswana): O mais antigo da região (1993), baseado nas receitas de diamantes.

  2. Fundo Soberano de Angola (FSDEA): Com activos estimados em 4,1 mil milhões de dólares.

  3. Nigeria Sovereign Investment Authority: Com cerca de 3,1 mil milhões de dólares.

Vulnerabilidade e a “Armadilha” das Commodities

A análise sublinha que a génese dos fundos africanos — maioritariamente dependentes do petróleo, gás e diamantes — os expõe directamente às flutuações de preços nos mercados internacionais e às pressões da transição energética. Cerca de 40% das exportações africanas dependem de combustíveis fósseis, com Angola, Argélia, Tchad e Nigéria a figurarem entre os países com maior risco de exposição.

O relatório recorda ainda que, durante o período pandémico, os governos de Angola, Botswana, Gana e Nigéria foram forçados a efectuar levantamentos significativos nestes fundos para suprir despesas públicas urgentes, o que limitou a capacidade de capitalização a longo prazo.

Apesar do cenário actual, o relatório antecipa uma “segunda vaga” de criação de fundos soberanos entre 2026 e 2030. Moçambique é apontado como o exemplo mais recente desta dinâmica, com o lançamento do seu fundo soberano alimentado pelas receitas do gás natural liquefeito (GNL).

Fonte: Líder Magazine

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *