O Banco de Poupança e Crédito (BPC), instituição maioritariamente detida pelo Estado angolano, registou em 2025 uma queda abrupta nos dividendos entregues ao accionista público — recuo de 84,96%, para apenas 18,059 mil milhões de kwanzas, o valor mais baixo dos últimos dois anos. Enquanto o Estado vê os seus rendimentos encolherem drasticamente, a remuneração dos órgãos de gestão do banco disparou mais de 115%, atingindo 2,718 mil milhões de kwanzas, num cenário que contrasta fortemente com a fraca performance financeira da instituição.
O resultado líquido consolidado do BPC caiu 81,42% face a 2024, fixando-se em 22,966 mil milhões de kwanzas, o que arrastou consigo o lucro atribuível aos accionistas para apenas 4,602 mil milhões de kwanzas — uma redução de 95,71%. Apesar disso, os custos com pessoal globais aumentaram ligeiramente, passando de 70,789 mil milhões para 72,356 mil milhões de kwanzas, impulsionados sobretudo pelo aumento exponencial nas remunerações da administração, enquanto os salários dos demais funcionários caíram ligeiramente.
O cenário torna-se ainda mais preocupante à luz do parecer do auditor independente, a firma Deloitte, que não só não conseguiu validar plenamente as contas, como agravou as suas reservas: passaram de cinco em 2024 para sete em 2025. Entre as principais dúvidas levantadas estão questões sobre a titularidade legal de imóveis e terrenos avaliados em mais de 82 mil milhões de kwanzas, bem como incertezas sobre a recuperabilidade de créditos duvidosos e a solidez financeira de duas subsidiárias estratégicas: Fênix Pensões e Mundial Seguros.
Em comunicado anterior, o Conselho de Administração do BPC tinha prometido “sanear” as observações do auditor relativas ao exercício de 2024. Contudo, longe de cumprir esse compromisso, a administração viu-se confrontada com novas fragilidades contabilísticas. A Deloitte aponta, nomeadamente, a ausência de um modelo robusto de avaliação de imparidade de créditos, obrigatório segundo as normas internacionais de reporte financeiro — um processo que, segundo o próprio banco, só foi iniciado no primeiro semestre de 2024, mas que ainda não produziu resultados auditáveis.
“Não obtivemos evidência suficiente de que tenha sido efectuada uma análise para determinar se os bens registados como ‘activos tangíveis em curso’ deveriam ser reclassificados como imobilizado firme”, escreve a Deloitte, sublinhando a impossibilidade de concluir sobre a exactidão desses valores nas demonstrações financeiras consolidadas em 31 de Dezembro de 2025.
Fonte: Valor Economico
