O Presidente da República, João Lourenço, defendeu, esta terça-feira, no Parlamento argelino, que as matérias-primas críticas de África devem ser geridas com rigor para impulsionar a industrialização do continente e garantir parcerias justas no comércio internacional. A afirmação foi feita durante o discurso proferido na Assembleia Popular Nacional da Argélia, no âmbito da visita de Estado que o Chefe de Estado angolano iniciou ontem àquele país do Norte de África.
Numa intervenção marcada pela gratidão e pela reafirmação de laços históricos, João Lourenço destacou que Angola e a Argélia compartilham “um amplo leque de valores” forjados há cinco décadas, desde o apoio incondicional de Argel à luta de libertação nacional angolana. “O vosso povo e a vossa nação foram inexcedíveis na contribuição em termos materiais, políticos e de formação de quadros para que o nosso país se tornasse numa nação soberana”, sublinhou o Presidente, perante os deputados argelinos.
O Chefe de Estado angolano realçou o papel estruturante da parceria entre a Sonangol e a Sonatrach — as empresas nacionais de hidrocarbonetos de Angola e da Argélia, respectivamente — como exemplo de cooperação que coloca ambos os países “num plano de liderança na transição energética do continente”.
João Lourenço aproveitou para enaltecer a política comercial pan-africanista da Argélia, que privilegia fornecedores africanos na aquisição de produtos manufacturados, considerando que este posicionamento reforça o potencial da Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA) como alavanca para a criação de um Mercado Comum Africano.
Posicionamento sobre conflitos globais e reformas institucionais
Num tom pedagógico e firme, o Presidente abordou questões que preocupam directamente os cidadãos angolanos e africanos: as alterações climáticas, a urgência de reformar o Conselho de Segurança das Nações Unidas e a necessidade de maior representatividade de África nas instituições financeiras internacionais.
“Repudiamos a prática inaceitável que ignora o primado do Direito Internacional”, afirmou João Lourenço, referindo-se aos conflitos na Ucrânia, no Médio Oriente e em várias regiões de África — Sudão, RDC, Líbia, Somália e Mali. O Presidente elogiou, em particular, os esforços do homólogo argelino, Abdelmadjid Tebboune, na qualidade de Campeão da União Africana para a Prevenção e Luta Contra o Terrorismo.
Numa nota de especial relevância para a juventude angolana, João Lourenço agradeceu publicamente a disponibilidade da Argélia em colocar à disposição de estudantes africanos 8.000 bolsas de estudo em diversas áreas do saber. “Este gesto será muito bem acolhido pelos jovens angolanos”, afirmou, sublinhando que a formação de quadros constitui um pilar fundamental para o desenvolvimento sustentável de Angola.
O discurso encerrou com um apelo ao aprofundamento da cooperação em sectores estratégicos como transportes, infra-estruturas, ensino superior, investigação científica e desenvolvimento tecnológico. João Lourenço reiterou que “o passado comum forjou as relações que desenvolvemos nos dias de hoje” e que cabe às duas nações “usar todas as ferramentas ao nosso dispor para construirmos juntos um futuro radiante”.
A visita de Estado prossegue esta quarta-feira com encontros bilaterais e a assinatura de memorandos de entendimento em áreas de interesse mútuo, conforme agenda divulgada pela Presidência da República.
