O Presidente da República, João Lourenço, marcou presença, esta terça-feira, no Parlamento da Argélia, em Argel, envergando o burnous, manto tradicional argelino que carrega séculos de história, identidade e prestígio. O gesto, mais do que protocolar, traduziu-se num acto de profunda cortesia diplomática e reconhecimento pela cultura do país anfitrião, enviando uma mensagem de proximidade entre os dois povos.
O burnous — também conhecido como “abernus” na língua berbere — é uma peça ancestral, confeccionada em lã, longa e sem mangas, que desempenha, no Norte de África, funções que vão da protecção climática à afirmação de estatuto social em cerimónias oficiais. O modelo usado pelo Chefe de Estado angolano, de tom castanho e designado “Al-Wabar”, é produzido com pelo de dromedário, uma especialidade artesanal da região de Djelfa, altamente valorizada na Argélia.
A importância do burnous pode ser compreendida através do mesmo prisma com que olhamos para as nossas próprias vestes cerimoniais: assim como a capulana, os trajes de soba ou as vestimentas de cerimónia das nossas províncias carregam simbolismo, pertença e respeito, o burnous representa, para os argelinos, orgulho nacional, soberania e memória colectiva.
A peça remonta aos tempos das tribos berberes. O célebre historiador Ibn Khaldoun referia-se aos berberes como “asḥaab al-baraanis” — “aqueles que vestem o burnous”. Hoje, na Argélia contemporânea, líderes de Estado e figuras públicas envergam-no em actos solenes, reafirmando a ligação entre governação e tradição.
Na região da Cabília, o burnous assume ainda uma dimensão comunitária: quando um menino completa dois anos de idade, a mãe ou a avó tecem-lhe o primeiro manto, num ritual que transmite valores de pertença e continuidade geracional.
