O Presidente da República Democrática do Congo (RDC), Félix Tshisekedi, de 62 anos, lançou esta quarta-feira, 6 de Maio, em Kinshasa, uma campanha estratégica para viabilizar um terceiro mandato presidencial, apesar da Constituição congolesa vedar expressamente essa possibilidade. A iniciativa, que depende de uma revisão constitucional aprovada por referendo popular, gerou reacções violentas na oposição, que acusa o chefe de Estado de planear um “golpe constitucional” com potencial para desencadear uma grave crise política no país, cujo segundo mandato termina em 2028.

Tshisekedi apela ao “povo” para legitimar mais tempo no poder

Em conferência de imprensa realizada na capital congolesa, Félix Tshisekedi adoptou um discurso cauteloso ao afirmar que não procurava activamente um terceiro mandato, mas que “aceitaria o desafio” caso fosse essa a vontade expressa pelos cidadãos congoleses.

“Eu não estava à procura de um terceiro mandato, mas posso dizer que se o povo congolês me quiser no poder por mais um mandato, eu aceitarei esse desafio”, declarou o Presidente, garantindo que qualquer alteração à Lei Fundamental só avançaria mediante consulta e aprovação popular através de referendo.

A estratégia de Tshisekedi consiste em apresentar a revisão constitucional como uma resposta a um suposto clamor popular, e não como uma iniciativa pessoal — narrativa semelhante à adoptada por outros líderes africanos que tentaram perpetuar-se no poder.

Para além da via da revisão constitucional, o Presidente da RDC deixou em aberto uma segunda possibilidade: o adiamento das eleições presidenciais de 2028 devido ao conflito armado que há anos assola as províncias orientais do país, onde grupos rebeldes, incluindo o M23 apoiado pelo Ruanda, disputam territórios ricos em recursos minerais.

Analistas políticos interpretam esta declaração como um mecanismo alternativo de perpetuação no poder, caso a revisão constitucional não obtenha apoio suficiente ou enfrente resistência internacional.

Oposição denuncia “golpe branco” e risco de violência

A reacção da oposição congolesa foi imediata e contundente. Delly Sesanga, deputado e aliado próximo de Moïse Katumbi — um dos principais opositores ao regime —, afirmou que Tshisekedi “deixou cair a máscara”, revelando as suas verdadeiras intenções autocráticas.

Claudel Lubaya, líder partidário da oposição e também membro do Parlamento, advertiu que a iniciativa presidencial possui “todos os ingredientes” para mergulhar a RDC numa nova vaga de violência ou até mesmo numa guerra civil, recordando o historial de instabilidade política do país.

A oposição está particularmente preocupada com o precedente criado por tentativas semelhantes noutros países africanos, onde esforços de prolongamento de mandatos resultaram em crises humanitárias e conflitos armados.

A União Africana (UA) tem criticado publicamente estas manobras, classificando-as como “mudanças inconstitucionais de governo”, mas a organização continental tem demonstrado pouca capacidade de dissuasão ou sanção efectiva.

Fonte: Novo Jornal

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