O lucro conjunto dos 20 bancos comerciais que operaram no primeiro trimestre de 2026 recuou 16% para 253,4 mil milhões de kwanzas (cerca de 277,5 milhões de dólares), face aos 303,3 mil milhões de kwanzas contabilizados no período homólogo, segundo cálculos do Expansão com base nos balancetes trimestrais individuais das instituições bancárias. Trata-se do pior arranque dos últimos três anos, depois de o sector ter encerrado 2025 com o maior lucro de sempre em moeda nacional, ultrapassando a barreira de um bilião de kwanzas. As quedas nos resultados líquidos do BAI, BFA e BPC pressionaram em baixa o desempenho agregado do sector.
Banca lucra menos 49,9 mil milhões Kz face ao período homólogo
Contas feitas, a banca comercial lucrou menos 49,9 mil milhões de kwanzas quando comparado com o mesmo período do ano passado. Depois de ter terminado o exercício económico e financeiro de 2025 com o maior lucro de sempre em kwanzas, ultrapassando a barreira de um bilião, o sector regista agora o pior arranque dos últimos três anos.
A queda é atribuída principalmente ao desempenho dos grandes bancos, nomeadamente o BAI e o BFA, que registaram quebras significativas nos lucros e empurraram o resultado conjunto da banca para baixo.
BAI e BFA lideram quebras, mas mantêm-se os mais lucrativos
O BAI, liderado por Luís Lélis, viu os lucros passarem de 101,6 mil milhões de kwanzas para 62,2 mil milhões de kwanzas, o que representa uma queda de 39% nos resultados líquidos. Ou seja, o banco lucrou menos 39,4 mil milhões de kwanzas nos primeiros três meses do ano.
Já o BFA, liderado por Luís Gonçalves, viu os lucros caírem 10% para 58,0 mil milhões de kwanzas, face aos 64,4 mil milhões de kwanzas registados no período homólogo, menos 6,3 mil milhões de kwanzas.
Apesar destas quebras nos resultados líquidos, BAI e BFA continuam a ser, de longe, os dois bancos mais lucrativos da banca angolana. Ambos representam 47% do lucro total do sector no primeiro trimestre, entre os 20 bancos comerciais, o que demonstra não apenas o elevado nível de concentração do sistema bancário, mas também a forte dependência do desempenho destas duas instituições para a evolução dos resultados globais da banca.
BPC regista queda acentuada de 84% nos lucros
Além do BAI e do BFA, também contribuíram para o recuo dos resultados do sector:
Bancos com quebras nos lucros:
- BPC: queda de 84% para 1,0 mil milhões Kz
- Banco Valor (BVB): queda de 40% para 2,0 mil milhões Kz
- BNI: recuo de 38% para 890,2 milhões Kz
- BCA: redução de 16% para 2,5 mil milhões Kz
- Banco Keve: ligeira diminuição de 1% para 20,1 mil milhões Kz
Deterioração das margens financeiras pressiona resultados
Não é possível perceber ao certo o que está na base da queda dos lucros destes bancos, uma vez que os balancetes apresentam apenas a estrutura patrimonial, o crescimento dos activos, o peso dos depósitos, os resultados líquidos e a evolução dos fundos próprios, mas não detalham suficientemente os elementos que determinam a margem financeira das instituições, como receitas de juros, custos de juros, comissões e imparidades.
Ainda assim, entende-se que estes bancos registaram uma deterioração das suas margens financeiras, num cenário em que os custos de captação de recursos poderão estar a aumentar mais do que as receitas geradas pelos activos financeiros.
Não é à toa que alguns bancos já começaram, neste segundo trimestre, a aumentar os valores das comissões dos serviços prestados, desde créditos, levantamentos e manutenção de contas.
Banco Económico é o único com resultados negativos
A empurrar o resultado do agregado para baixo esteve também o Banco Económico, que foi o único a registar prejuízos, vendo os seus resultados líquidos caírem de 21,2 mil milhões de kwanzas no primeiro trimestre de 2025 para resultados negativos de 2,9 mil milhões de kwanzas nos primeiros três meses deste ano.
O problema é conhecido: o Económico continua em falência técnica, com fundos próprios negativos de 629,9 mil milhões de kwanzas, e dependente do Banco Nacional de Angola (BNA) para obter liquidez.
Até ao final do ano passado, o banco devia ao banco central:
- 87,7 mil milhões Kz em operações overnight de cedência de liquidez (montantes que deveriam ser pagos no dia seguinte à cedência)
- Quase 257 mil milhões Kz por um empréstimo concedido pelo BNA em 2016
Standard Bank, BCS e BCH destacam-se positivamente
Se, por um lado, oito bancos empurraram o lucro conjunto da banca para baixo, por outro, 12 instituições melhoraram os seus resultados e contribuíram positivamente para o desempenho agregado do sector.
Destaques positivos:
- Standard Bank (terceiro banco mais lucrativo): lucros subiram 11% para 37,2 mil milhões Kz, mais 3 mil milhões face ao período homólogo
- BCS: disparo de 50% nos lucros, para 18,2 mil milhões Kz, mais 6,1 mil milhões
- BCH: quase duplicou os resultados líquidos, passando de 4,4 mil milhões Kz para 8,2 mil milhões Kz
Investimento em dívida pública cresce 22%
Apesar da queda dos lucros, a banca, no geral, apresenta crescimento em alguns indicadores. Sem surpresa, os números dos balancetes demonstram que os bancos continuam a aumentar os seus investimentos em títulos de dívida pública, que cresceram 22% para 9,7 biliões de kwanzas nos primeiros três meses do ano face ao período homólogo.
Os grandes bancos lideram este movimento:
- BAI: +426,7 mil milhões Kz
- BFA: +286,9 mil milhões Kz
No total, os 20 bancos comerciais investiram mais 1,8 biliões de kwanzas em títulos públicos no primeiro trimestre face ao período homólogo.
Os títulos representam actualmente 35% dos activos totais da banca, demonstrando que continuam a ser o principal instrumento de investimento do sector, dominando a carteira de activos dos bancos.
Crescimento de aplicações em fundos de investimento
Nota-se também, através dos balancetes, um maior interesse dos bancos em aplicações junto de bancos centrais e no mercado de capitais, aplicando em Organismos de Investimento Colectivo (OIC) — entidades criadas para captar recursos de investidores e aplicá-los de acordo com uma política de investimento previamente definida, podendo assumir a forma de sociedades ou fundos de investimento.
Este movimento acompanha o crescimento da indústria dos fundos de investimento, uma vez que grande parte das Sociedades Gestoras de Organismos de Investimento Colectivo (SGOIC) é detida pelos próprios bancos.
Carteira de crédito cresce 18%
Os bancos também aumentaram a carteira de crédito. No primeiro trimestre, o conjunto dos 20 bancos comerciais registou um crescimento de 18% no stock de crédito, que passou para 6,7 biliões de kwanzas, mais 1,0 biliões quando comparado ao mesmo período do ano passado.
Principais destaques:
- BAI: crescimento de 57% do stock de crédito a clientes, para 1,4 biliões Kz, mais 499,5 mil milhões
- BFA: 872,8 mil milhões Kz, mais 126,8 mil milhões
- BIC: 693,0 mil milhões Kz, apesar de uma redução de 9% face ao período homólogo
Assim, o BIC, que durante muito tempo liderou o ranking do crédito à economia, mantém-se na terceira posição.
Rácio de transformação fixado em 33%
Os depósitos totais da banca passaram de 18,1 biliões de kwanzas para cerca de 20,0 biliões de kwanzas, o que representa um aumento de 11%.
Com isso, o rácio de transformação da banca comercial (percentagem dos depósitos dos clientes convertida em crédito) fixou-se em 33%, mais dois pontos percentuais face aos 31% registados no período homólogo.
Ainda assim, trata-se de um valor consideravelmente baixo quando comparado com economias mais desenvolvidas, o que demonstra que o crédito à economia continua sem ser prioridade para a banca angolana, ao contrário do investimento em dívida pública.
African Bank of Oman não entra nas contas do primeiro trimestre
Fora destas contas está o African Bank of Oman, que iniciou oficialmente as actividades em Abril, não entrando, por isso, nas contas do primeiro trimestre da banca nacional.
Fonte: Jornal Expansão
