Desde que Sebastião Pai Querido Gaspar Martins assumiu a presidência da Sonangol em 2019, o percurso empresarial do seu filho, o engenheiro Gianni Martins, registou uma aceleração notável em Angola. Através de participações directas e indirectas em sectores como seguros, petróleo e investimentos, Gianni consolidou uma posição económica robusta, levantando questões sobre os limites entre a iniciativa privada legítima e a influência derivada do topo da hierarquia da petrolífera estatal. Embora não existam provas de ilegalidade, a opacidade sobre o financiamento e os beneficiários finais destes activos coloca a transparência no centro do debate público luandense.

Um dos pontos mais sensíveis da carteira de Gianni Martins reside no sector segurador. Através da Global Inn Investments, o empresário estabeleceu uma parceria com a antiga Saham Angola (agora SanlamAllianz) precisamente no ano em que o pai chegou ao comando da Sonangol.

A evolução accionista é reveladora: em 2024, a participação directa de Gianni Martins saltou para 19,42%, coincidindo com a saída da Panatlantic da estrutura da seguradora. Somando as participações indirectas, a esfera de influência familiar pode controlar cerca de 29,93% de uma companhia que opera num mercado onde a Sonangol e as suas subsidiárias são os maiores clientes em termos de prémios e coberturas de risco. Até ao momento, não são conhecidos os valores das transacções nem a origem dos fundos que financiaram este reforço de posição.

Petróleo: O Director-Geral da Alfort Petroleum

No sector extractivo, Gianni Martins lidera, desde 2022, a Alfort Petroleum, operadora do bloco terrestre KON-8. Embora a empresa assegure possuir capital integralmente norte-americano, a identidade dos investidores permanece protegida por trás de estruturas societárias. O facto de a entrada na exploração petrolífera ter ocorrido com o pai na liderança da concessionária nacional levanta o habitual cepticismo sobre o acesso privilegiado a oportunidades de negócio (“insider information”).

A trajectória da família Martins não é isenta de episódios internacionais. Em 2015, a Glinn USA Investments — ligada ao pai e ao filho — viu uma doação política ser devolvida nos Estados Unidos por falta de certificação regulatória. No Texas, a empresa partilhava o mesmo endereço oficial da Sonangol, uma proximidade que, embora negada por advogados na época, alimenta as dúvidas sobre a separação entre o património público e privado.

A nível doméstico, os interesses estendem-se ao sector bancário. Documentos do Banco Angolano de Investimentos (BAI) revelam que Sebastião Martins detém, via Gianni Janice Darlings Consultores, Lda., uma participação indirecta de 1,97% na instituição.

A questão central no mercado angolano actual não é a existência de fortunas, mas a sua génese. Para o interesse público, restam perguntas que exigem respostas claras:

  • Como foram financiadas as aquisições de participações em seguradoras e blocos petrolíferos?

  • Existem contratos de prestação de serviços entre a Sonangol e empresas detidas por Gianni Martins?

  • Quem são os beneficiários efectivos do capital norte-americano na Alfort Petroleum?

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