Instituição em reestruturação negocia entrada de novos accionistas e sobrevive, há dois anos, da alienação de imóveis. Auditoria externa emite opinião adversa às contas e FMI alerta para inércia na resolução do caso.
O Banco Económico necessita de um aumento de capital de 669,1 mil milhões de kwanzas para recuperar a solvabilidade e a liquidez que lhe permitam voltar a operar como instituição bancária de pleno direito. A informação, avançada pelo jornal Expansão, confirma que o conselho de administração está mandatado pelos accionistas para encontrar novos investidores, encontrando-se actualmente em negociações com três grupos económicos.
A medida é considerada urgente: há dois anos que o banco, outrora o maior do país, tem sobrevivido mais como uma gestora imobiliária do que como uma entidade financeira. Neste período, alienou mais de 1.000 imóveis, mas continua sem a liquidez necessária para operacionalizar o negócio bancário junto do cidadão comum e das empresas angolanas.
Lucro em 2025 esconde fragilidade do núcleo bancário
De acordo com o relatório e contas de 2025, o Banco Económico regressou aos lucros pela primeira vez desde 2021, com um resultado líquido de 13,7 mil milhões de kwanzas. O produto da actividade bancária cresceu substancialmente, de 7,6 mil milhões Kz em 2024 para 43,2 mil milhões Kz no ano transacto.
Contudo, os números revelam uma realidade que importa compreender: este crescimento deve-se, em grande medida, à “alienação de activos imobiliários”. Não fosse a venda de imóveis, os resultados do banco em 2025 seriam negativos. A margem financeira — que mede a diferença entre juros recebidos e juros pagos — permaneceu negativa em 12,9 mil milhões de kwanzas, um agravamento de 49% face ao ano anterior. Em termos simples: o banco gastou mais em juros a depositantes e credores do que ganhou com os empréstimos que concedeu.
O peso dos imóveis e o fundo IMOPPERTIES
A carteira imobiliária do Banco Económico tem origem, em parte, na reversão, em 2023, de uma operação realizada em 2016, quando o Governo da época transferiu uma carteira de activos tóxicos para o então Grupo ENSA como forma de capitalizar a instituição. Nessa carteira, avaliada na altura em 380 mil milhões de kwanzas (equivalentes a 2.300 milhões de dólares na época), constavam créditos de cobrança duvidosa — muitos ligados a Pessoas Politicamente Expostas e empresas sem actividade real — e activos imobiliários sobreavaliados.
Com a reversão, o banco viu-se com centenas de imóveis no activo, obrigado por lei a vendê-los no prazo máximo de dois anos. Para cumprir a imposição do supervisor bancário, criou o fundo imobiliário IMOPPERTIES, que hoje vale cerca de 328 mil milhões de kwanzas e integra 800 fracções (residenciais, comerciais, escritórios e terrenos).
Até Março de 2026, o valor global dos imóveis com contratos de promessa de compra e venda celebrados ascende a 456,2 mil milhões de kwanzas, tendo o banco já recebido 451,3 mil milhões. Contudo, fontes do sector alertam que grande parte destas operações foi realizada com “partes relacionadas” (accionistas ou administradores), através da compensação de valores em depósitos — sobretudo em moeda estrangeira —, o que não gerou liquidez efectiva para a instituição.
Activos tóxicos e o dilema da recuperação de crédito
Persiste no balanço do ex-BESA uma carteira de crédito malparado que ronda os 5.000 milhões de dólares. Em cima da mesa, segundo apurou o Expansão, estão duas soluções: a criação de um veículo para absorção dessa carteira — seguindo o modelo de “banco bom” e “banco mau” aplicado em Portugal ao Novo Banco — ou o recurso à Recredit, entidade criada para gerir activos tóxicos do BPC, que poderia actuar como prestadora de serviços de recuperação de crédito.
Seja qual for a solução, a recuperação destes créditos não será tarefa fácil. Muitos carecem de garantias reais e o sistema de justiça angolano, reconhecidamente moroso, constitui um forte entrave à cobrança judicial. Esta dificuldade tem levado a administração do banco a aceitar acordos com devedores que contemplam, por exemplo, o pagamento de pequenas percentagens do valor total da dívida.
Dependência do BNA e alerta do FMI
Para garantir liquidez imediata, o Banco Económico tem recorrido a empréstimos do Banco Nacional de Angola (BNA). Contudo, o próprio banco central tem tido dificuldades em receber os pagamentos, chegando a inscrever imparidades sobre esses créditos no âmbito de operações de liquidez.
É por esta razão, entre outras, que o Fundo Monetário Internacional (FMI) tem chamado a atenção para a inércia do supervisor bancário na resolução definitiva do caso do Banco Económico. Desde 2021, e enquanto decorre o processo de recapitalização e reestruturação, a instituição está isenta de cumprir os mínimos regulamentares em matéria de fundos próprios, posição cambial, rácio de liquidez e reservas obrigatórias.
Auditoria externa emite opinião adversa
Um dos pontos mais sensíveis do relatório e contas prende-se com a posição do auditor externo, a Deloitte. Ao contrário do conselho fiscal, que subscreveu as contas com base no pressuposto da continuidade das operações, a Deloitte emitiu uma “opinião adversa”, considerando que as demonstrações financeiras não reflectem a verdadeira posição do banco.
Entre as justificações apresentadas, destacam-se:
- Dúvidas sobre o valor dos imóveis inscritos no balanço;
- Necessidade de actualização dos registos de propriedade a favor do banco;
- Verificação da ocupação efectiva dos imóveis;
- Debilidades no modelo de cálculo de perdas por imparidade para crédito a clientes;
- Dificuldade em apurar a adequação do imposto sobre os exercícios de 2022 a 2025, nomeadamente no tratamento das variações cambiais.
A Deloitte sublinha ainda que os desequilíbrios de liquidez condicionam a capacidade do banco em honrar responsabilidades, incluindo a movimentação de depósitos pelos clientes, situação que poderá gerar contingências não reconhecidas nas contas consolidadas.
Face ao exposto, o auditor conclui que “não é apropriada a utilização do pressuposto da continuidade das operações” na preparação das demonstrações financeiras, alertando que os impactos de um cenário alternativo seriam “materiais e profundos”.
O Plano de Reestruturação e Recuperação (PRR) está praticamente concluído, mas o conselho de administração reconhece que as medidas implementadas “foram insuficientes para atingir o objectivo último do saneamento financeiro”. O banco foi fortemente afectado pela desvalorização do kwanza desde 2018, que o obrigou a converter créditos em moeda estrangeira para a moeda nacional, enquanto os depósitos se mantiveram maioritariamente em dólar e euro.
Para equilibrar o Capital Próprio, aumentar a liquidez e cumprir os requisitos regulamentares, a necessidade de capital estimada é de 669,1 mil milhões de kwanzas. Este valor poderá ser inferior caso a reestruturação da dívida de 257 mil milhões de kwanzas ao BNA se concretize em condições mais favoráveis.
O conselho fiscal revela ainda que o banco apresentou às instâncias governamentais um Plano de Viabilização e Recapitalização, “ainda em apreciação e que aguarda por um pronunciamento favorável”. A decisão, agora, não é apenas técnica: é também política.
Fonte: Jornal Expansão
