Entre 2021 e Maio de 2026, pelo menos 960 empresas solicitaram a dissolução oficial junto do Guiché Único de Empresas (GUE) em Angola, um número que representa apenas 0,4% das 195.551 unidades constituídas no mesmo período. Apesar da baixa taxa de formalização de encerramentos, especialistas e líderes associativos alertam que a mortalidade empresarial real é significativamente superior, impulsionada pela asfixia burocrática, dificuldades no acesso ao crédito e uma carga fiscal que impede o crescimento sustentável do sector produtivo nacional.

O Crescimento das Dissoluções Oficiais

A análise detalhada dos dados do GUE revela uma trajectória ascendente no encerramento de negócios. Se em 2021 apenas 77 empresas formalizaram o fim das actividades, o número saltou para 214 em 2024, atingindo o pico de 313 dissoluções em 2025. Nos primeiros cinco meses de 2026, outras 142 empresas seguiram o mesmo caminho.

Contudo, para José Severino, presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), estes indicadores pecam por defeito. O responsável sublinha que a dinâmica da economia angolana exige mais do que apenas a criação de novos NIFs; exige a manutenção dos postos de trabalho e a geração de riqueza.

O Peso da Burocracia e o “Custo Angola”

Um dos principais entraves à sobrevivência das empresas, segundo a AIA, reside na excessiva burocracia para a obtenção de financiamento. José Severino exemplifica com a realidade do sector agrário:

  • Barreira Documental: Para um crédito de 25 milhões de kwanzas (destinado à compra de um tractor), um empresário pode ser confrontado com a exigência de mais de 40 documentos.

  • Validade Curta: Muitos destes documentos possuem validade de apenas três meses, forçando custos recorrentes de renovação antes mesmo do crédito ser aprovado.

“Imaginemos que apenas 200 dessas empresas fossem produtivas e que cada uma pudesse gerar entre 5 e 10 milhões de dólares por ano. Quantos empregos seriam criados e quantos impostos deixariam de ser arrecadados?”, questiona o líder da AIA.

Desafios Estruturais

Além dos entraves administrativos, a entrada de empreendedores sem a devida preparação técnica e a pesada carga tributária são apontadas como causas directas para o encerramento precoce de negócios. Para o sector industrial, o foco governamental deve transitar da facilitação da constituição de empresas para a criação de um ecossistema que garanta a sua longevidade, reduzindo a informalidade que caracteriza o fecho de muitas unidades em Luanda e nas demais províncias.

Fonte: Valor Económico

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