Entre seguros, petróleo, investimentos e uma antiga empresa no Texas, a ascensão empresarial de Gianni Martins cruza-se com o período em que o pai passou a comandar a Sonangol. A questão não é apenas o que possui, mas como foram estruturados e financiados os negócios. Em Angola, o poder raramente se apresenta de forma directa. Nem sempre surge num contrato assinado à vista de todos, numa transferência bancária evidente ou numa empresa registada no nome de quem realmente manda.

Hoje, as relações de influência podem circular por fundações, sociedades de investimento, administradores de confiança, participações indirectas, parceiros estrangeiros e empresas registadas fora do país. O tráfico de influência, quando existe, já não precisa de deixar a impressão digital de outros tempos. Pode esconder-se atrás de estruturas formalmente legais, capital externo, consultorias, fundos e complexas cadeias societárias.

É por isso que o caso de Gianni Policarpo Gaspar Martins merece atenção. Filho de Sebastião Pai Querido Gaspar Martins, presidente do Conselho de Administração da Sonangol, Gianni aparece ligado a negócios que atravessam alguns dos sectores mais estratégicos da economia angolana: petróleo, seguros, investimentos e finanças.

A primeira pergunta é inevitável: onde termina a trajectória empresarial própria e onde começa a zona de influência criada pelo acesso familiar ao poder?

Gianni Martins apresenta-se como engenheiro de petróleo, com passagem pela Chevron e pela Sonangol. A sua biografia indica que deixou a empresa pública em 2013 e, no ano seguinte, assumiu a liderança da Global Inn Investments. A própria empresa diz ter sido criada em 2010, mas reconhece que as operações começaram em 2014. A Global Inn não se apresenta como uma sociedade comum. Define-se como veículo para facilitar a entrada de investimento estrangeiro em Angola. No papel, a fórmula é atractiva: capital internacional, negócios privados e desenvolvimento nacional. Na prática, esse tipo de estrutura levanta uma pergunta decisiva: quem coloca efectivamente o dinheiro, quem toma as decisões e quem beneficia no fim?

A Global Inn afirma ter entrado em concessões petrolíferas onshore, participado num projecto mineiro e, em Novembro de 2019, estabelecido uma parceria com a então Saham Angola Seguros, hoje SanlamAllianz Angola. O detalhe da data não é irrelevante.

Foi em 2019 que Sebastião Martins assumiu a presidência da Sonangol. Pouco tempo depois, Gianni Martins e a Global Inn passaram a figurar entre os principais accionistas da seguradora. Os relatórios da SanlamAllianz mostram uma evolução que chama a atenção: em 2024, Gianni detinha directamente 10,51% e a Global Inn outros 10,51%. A Panatlantic tinha 8,92%.

No relatório seguinte, Gianni surge já com 19,42%. A Global Inn mantém 10,51%. A Panatlantic praticamente desaparece da estrutura accionista. A conta é simples, embora a explicação ainda não seja pública: Gianni ganhou 8,91 pontos percentuais, praticamente o mesmo peso que antes pertencia à Panatlantic.

A exposição económica ligada à sua esfera familiar pode, assim, aproximar-se de 29,93% da SanlamAllianz Angola. Trata-se de uma posição relevante numa seguradora que opera num mercado onde empresas petrolíferas, públicas e privadas, são grandes compradoras de apólices, coberturas e serviços de risco.

Mas ninguém sabe publicamente quanto foi pago pelas acções, quem as vendeu, quem financiou a aquisição, que garantias foram prestadas ou quais as autorizações regulatórias emitidas para a operação.
São perguntas que se tornam ainda mais importantes quando se olha para o outro lado do percurso: o petróleo.

Desde 2022, Gianni Martins é director-geral da Alfort Petroleum, ligada ao bloco terrestre KON-8. A entrada no negócio de exploração e produção ocorreu quando o seu pai já dirigia a Sonangol há três anos. A Alfort declarou que tem capital integralmente de origem norte-americana e negou ter recebido financiamento da Sonangol. Mas “capital norte-americano” é uma descrição, não uma identificação. Não revela os nomes dos investidores, os beneficiários efectivos, os contratos de financiamento, as garantias ou a origem final dos recursos.

Em mercados onde o dinheiro pode circular por várias jurisdições antes de chegar a Angola, a nacionalidade declarada do capital não basta para afastar dúvidas. É preciso saber quem controla, quem financia e quem assume o risco económico real.

Há ainda uma sombra antiga que reaparece nos Estados Unidos

Em 2015, uma empresa chamada Glinn USA Investments tentou doar 25 mil dólares a um comité político na Virgínia. O dinheiro foi devolvido depois de a empresa não assinar uma certificação sobre a regularidade da contribuição. Na altura, reportagens da imprensa internacional indicaram que Sebastião Martins aparecia como presidente e Gianni como director da sociedade.

A Glinn partilhava endereço e agente registado com a Sonangol em Houston. O advogado das empresas negou qualquer relação entre elas. Até hoje, não foi demonstrado publicamente que a Glinn USA Investments seja a mesma entidade que a Global Inn Investments. Mas a coincidência de nomes, o vínculo familiar e a proximidade registal com a Sonangol são elementos que não podem ser ignorados numa investigação sobre origem de capitais e influência.

O nome da família surge também noutro ponto do sistema financeiro. Um prospecto regulatório do BAI indica que Sebastião Martins possui indirectamente 1,97% do banco por intermédio de uma sociedade chamada Gianni Janice Darlings Consultores, Lda., da qual detém 50%. Esse dado demonstra que há interesses empresariais familiares anteriores à actual presidência da Sonangol. Também mostra que não seria rigoroso dizer que todos os negócios da família nasceram depois de 2019. A base empresarial já existia.

Mas os activos de maior projecção — a participação na seguradora, a operação petrolífera e a expansão da posição directa na SanlamAllianz — surgem depois ou ao mesmo tempo em que Sebastião Martins passou a liderar a petrolífera estatal.

Os documentos consultados não provam, por si só, que a Sonangol financiou a Alfort, que Gianni Martins tenha recebido favores ilegais, que a Global Inn seja uma fachada ou que tenha havido tráfico de influência. Também não há, até agora, prova pública primária de contratos entre a Sonangol e a SanlamAllianz que tenham beneficiado a participação accionista da família. Mas os documentos levantam perguntas concretas que não podem ser respondidas com biografias, comunicados ou fórmulas genéricas sobre “investimento estrangeiro”.

Quanto custaram as acções da SanlamAllianz? Quem financiou a compra? Quem são os investidores reais da Alfort Petroleum? Que relação existe entre a Glinn USA Investments e os negócios actuais da família? Existem contratos, seguros, garantias, empréstimos ou serviços entre a Sonangol e empresas ligadas a Gianni Martins?

A resposta a essas perguntas dirá se estamos perante uma trajectória empresarial legítima que coincidiu com a ascensão do pai ao poder, ou perante uma estrutura mais sofisticada de acesso privilegiado a sectores estratégicos. Num país onde os negócios do petróleo continuam a decidir fortunas, a transparência não é um favor. É uma obrigação.

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