Da banca à energia, aviação e administração pública, vários ataques informáticos só foram conhecidos meses depois — ou através da imprensa. A paralisação da maior operadora do país volta a colocar uma pergunta urgente: quantos dados de angolanos terão sido comprometidos sem que os titulares fossem informados?

A UNITEL confirmou nesta terça-feira, 28 de Julho, ter sido alvo de um ataque cibernético que, desde as 02h20, afectou os serviços de voz, dados móveis e acesso à Internet em todo o território nacional. A operadora informou que activou mecanismos de resposta e contenção, mas não esclareceu a origem e o tipo de ataque, a dimensão dos sistemas atingidos, o número de clientes afectados nem se houve acesso, cópia ou exposição de dados pessoais. A dimensão da interrupção tornou o incidente impossível de ignorar: durante horas, cidadãos e empresas estão sem conseguir efectuar chamadas ou aceder normalmente à rede.

As primeiras perguntas colocadas pelo jornalista Carlos Alberto vão directamente ao centro do problema: algum dado dos clientes foi exposto ou comprometido? Foram atingidos dados pessoais, registos de chamadas, mensagens ou informações financeiras? O ataque resultou de uma intrusão externa, de tecnologia desactualizada ou de uma falha interna? Estas questões ganham maior importância porque a UNITEL não é apenas uma operadora telefónica. A sua infra-estrutura suporta comunicações pessoais, pagamentos, serviços empresariais, acesso a plataformas públicas e actividades económicas de milhões de angolanos. Uma reposição da rede, por si só, não prova que os dados permaneceram seguros.

O episódio não é isolado. Em Janeiro de 2024, antes mesmo de ser conhecido um ataque contra o Banco Nacional de Angola, o Diário dos Negócios questionava se o país estaria preparado para defender as suas infra-estruturas críticas. Meses depois, o mesmo órgão alertou para uma tendência de instituições ocultarem incidentes dos clientes. O Maka Angola noticiou que o ataque ao BNA teria atingido bases de dados, correio electrónico, pastas partilhadas e o Sistema de Pagamentos em Tempo Real. O banco central só reagiu publicamente depois das notícias, confirmando um “incidente de segurança”, mas afirmando que não houve impactos significativos na infra-estrutura ou nos dados — duas versões cuja diferença nunca foi esclarecida através da publicação de uma auditoria técnica independente.

Os casos em que houve confirmação oficial de acesso indevido mostram que o risco não é teórico. Em Setembro de 2023, um ataque de ransomware contra a Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade permitiu aos atacantes aceder a nomes completos, datas de nascimento, filiação, números de Bilhete de Identidade e de Identificação Fiscal, contactos telefónicos, moradas e dados de geolocalização de clientes e trabalhadores. No mesmo mês, a COSAL sofreu um ataque que resultou na encriptação, indisponibilidade, acesso e divulgação não autorizados de dados. Contudo, a dimensão destes incidentes só ganhou conhecimento público em Julho de 2024, quando a Agência de Protecção de Dados anunciou multas de 225 mil dólares à ENDE e 75 mil dólares à COSAL.

A lista continuou a crescer. O Banco de Desenvolvimento de Angola foi atacado por ransomware em Fevereiro de 2023 e apenas em 2025 se tornou público que a APD o havia multado por não proteger adequadamente os dados dos seus colaboradores. A TAAG sofreu outro ataque do mesmo tipo em Setembro de 2024, com encriptação, indisponibilidade e possibilidade de acesso e divulgação não autorizados de informações de trabalhadores, clientes e fornecedores. A companhia foi posteriormente multada, e documentos divulgados mais tarde revelaram que a ofensiva afectou sistemas contabilísticos e pastas da rede corporativa.

Também em Fevereiro de 2023, o Banco Sol confirmou ter sido atacado, depois de vários serviços terem ficado indisponíveis, embora tenha assegurado que o sistema bancário central e as informações financeiras dos clientes não foram afectados. Dias antes, a TVCABO informou que um ataque contra os sistemas do Grupo Visabeira provocara constrangimentos nos seus serviços de atendimento e gestão. Em ambos os casos, as comunicações públicas deixaram sem resposta detalhes como o método utilizado pelos atacantes, o tempo de permanência nos sistemas e os resultados de eventuais exames forenses.

A administração pública também tem estado sob pressão. Em 2025, um grupo de atacantes reivindicou ofensivas contra o Ministério das Finanças, a Assembleia Nacional, a Procuradoria-Geral da República e outros organismos; a Assembleia confirmou que retirou o seu portal do ar como medida preventiva. Em Junho de 2026, o próprio site do ANGOTIC, principal evento tecnológico do país, foi atingido por sucessivas tentativas de ataque. Neste caso, o Ministério das Telecomunicações comunicou rapidamente e assegurou que os dados foram preservados — uma transparência que continua longe de ser uma prática uniforme entre as instituições angolanas.

Não existem informações públicas suficientes para determinar quantos cidadãos foram afectados por todos estes incidentes. Angola não dispõe de um registo público consolidado que indique, para cada ataque, a instituição atingida, o número de titulares envolvidos, as categorias de dados expostos, a duração da intrusão e as medidas tomadas para proteger as vítimas. A Estratégia Nacional de Cibersegurança só foi aprovada em Dezembro de 2025, prevendo a criação de um Conselho e de um Centro Nacional de Cibersegurança, num país onde as autoridades já reconheciam, desde 2021, uma média mensal de cerca de mil infracções cibernéticas.

O ataque à UNITEL exige, por isso, mais do que a reposição da rede. A operadora, o INACOM, a Agência de Protecção de Dados e o Ministério das Telecomunicações devem esclarecer publicamente se houve extracção de dados, quais sistemas foram atingidos, quantos clientes estão potencialmente expostos, qual foi a porta de entrada dos atacantes e se haverá uma auditoria independente. Como advertiu Carlos Alberto, “transparência é essencial”. Sem respostas completas, cada novo ciberataque reforçará a suspeita de que os angolanos apenas ficam a saber das invasões quando os sistemas deixam de funcionar — enquanto os ataques silenciosos e os dados possivelmente roubados permanecem fora do conhecimento público.

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