As famílias e empresas angolanas estão a enfrentar uma “erosão silenciosa” do seu património financeiro. Apesar de o saldo nominal nas contas bancárias crescer, o poder de compra real dos depósitos a prazo em Angola tem caído sistematicamente há pelo menos dez anos. Segundo dados do Banco Nacional de Angola (BNA) analisados pelo Expansão, a combinação de taxas de juro modestas e uma inflação persistente faz com que o aforrador perca dinheiro tanto ao depositar, quanto ao solicitar crédito, empurrando muitos cidadãos de volta à informalidade da kixikila.
O Ciclo da Perda Silenciosa
Ter dinheiro parado no banco tem sido, na prática, um negócio deficitário para o cidadão comum. Desde 2016, a remuneração oferecida pelas instituições bancárias para depósitos superiores a um ano não consegue acompanhar a subida generalizada de preços. Esta dinâmica cria um cenário onde, embora o extracto bancário mostre mais Kwanzas ao final de 12 meses, esses mesmos Kwanzas compram menos bens de consumo no mercado ou no supermercado do que no momento do depósito inicial.
O cenário agravou-se nos últimos dois anos. Em 2025, o volume total aplicado em depósitos a prazo atingiu os 7,9 biliões Kz, um crescimento de 8% face ao ano anterior. No entanto, este entusiasmo pelo aforro não foi recompensado:
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Juros Médios (2025): 9,9% (maturidade > 1 ano) e 9,2% (até 1 ano).
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Inflação Homóloga: Encerrou em 15,7%.
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Resultado Real: Uma perda de 5,8 pontos percentuais no poder de compra dos aforradores.
Em 2024, a situação foi ainda mais crítica para o bolso do angolano. A diferença entre o que os bancos pagaram e a subida dos preços chegou aos 12,1 pontos percentuais, uma das maiores brechas da década.
O Trauma de 2016 e a Fuga para a Informalidade
O histórico de perdas recorda o ano de 2016, o mais penalizador da série histórica recente. Naquela altura, enquanto a inflação disparava para os 41,1%, os bancos remuneravam as poupanças com apenas 4,8%. Em termos reais, quem confiou no sistema bancário viu um terço do valor das suas economias “desaparecer” num único ano.
Este cenário de juros reais negativos explica, em parte, a resiliência de práticas como a kixikila e o entesouramento de divisas. No actual sistema, o aforrador angolano é duplamente penalizado: recebe pouco pelo seu excedente e paga taxas de juro proibitivas quando necessita de financiamento para projectos pessoais ou empresariais.
Fonte: Jornal Expansão
