Apesar de um crescimento significativo na disponibilidade de divisas no mercado cambial angolano — com um aumento de 288% no primeiro trimestre de 2026, os bancos comerciais conseguiram garantir, em média, cerca de 1.000 milhões de dólares norte-americanos por mês, valor que cobre apenas metade das necessidades mensais do país em importações de bens e serviços.
De acordo com cálculos feitos com base em dados oficiais do Banco Nacional de Angola (BNA), o sistema bancário assegurou 3.022 milhões de dólares em divisas entre Janeiro e Março, um acréscimo de 6% face ao mesmo período do ano anterior. Contudo, esse montante está longe de suprir a procura real da economia nacional.
Segundo dados da Administração Geral Tributária (AGT), só em mercadorias, Angola importou 4.176 milhões de dólares no primeiro trimestre deste ano — o que equivale a uma média mensal de 1.392 milhões. A esta cifra somam-se ainda cerca de 710 milhões de dólares mensais gastos com a importação de serviços, segundo estimativas referentes a 2025. Assim, as divisas efectivamente disponíveis nos bancos cobrem pouco mais de 40% do total das necessidades externas correntes.
A maior parte das divisas continua a provir do sector petrolífero, que vendeu 1.262 milhões de dólares às instituições financeiras no trimestre, valor ligeiramente inferior aos 1.342 milhões registados em igual período de 2025. Seguem-se os “clientes diversos” — incluindo particulares e empresas não ligadas aos sectores extractivos — com vendas de 852 milhões, e o sector diamantífero, com 308 milhões.
O Tesouro Nacional, apesar de ter aumentado as suas vendas em 65 milhões de dólares face ao ano passado, atingindo 467 milhões, representa apenas 18% do total de divisas adquiridas pelos bancos — um sinal da contenção orçamental ainda dominante no contexto de serviço da dívida externa.
Curiosamente, apesar da persistência de um backlog cambial estimado em 1,2 mil milhões de dólares — ou seja, a diferença entre a procura insatisfeita e a oferta disponível —, o kwanza tem mantido uma notável estabilidade. Desde o início do ano, a moeda nacional registou uma ligeira apreciação de 0,02%, cotando-se em torno dos 912,1 kwanzas por dólar em meados de Abril

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Em teoria, o regime cambial flutuante adoptado pelo BNA deveria reflectir essa escassez relativa com uma depreciação da moeda. No entanto, a actual estabilidade pode estar associada a intervenções pontuais das autoridades monetárias ou a fluxos temporários de receitas petrolíferas, semelhantes aos observados em 2022, quando o barril ultrapassou os 100 dólares.
Importa ainda considerar outras pressões sobre as reservas cambiais que não aparecem nas estatísticas de importações directas: transferências de lucros de empresas estrangeiras (média de 248 milhões/mês em 2025), salários de expatriados (30 milhões/mês) e despesas como propinas universitárias e tratamentos médicos no exterior.
Fonte: Expansão

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