A multinacional de commodities Trafigura retirou-se oficialmente do projecto de construção da linha de transmissão eléctrica de 2.000 megawatts (MW) que ligaria Angola às regiões mineiras da República Democrática do Congo (RDC) e da Zâmbia. A informação, avançada pela agência Reuters e confirmada por fontes do Governo angolano, surge num momento de reestruturação do consórcio, visando garantir o escoamento do excedente hidroeléctrico nacional, proveniente sobretudo da Barragem de Laúca, para suprir o défice energético no Copperbelt africano.
O empreendimento, de carácter estratégico para a balança comercial angolana, tinha como objectivo principal rentabilizar a capacidade instalada da central hidroeléctrica de Laúca, no rio Kwanza (aproximadamente 2.070 MW). Com a saída da gigante sedeada em Singapura, o Governo angolano prossegue agora negociações com novos parceiros para assegurar que a energia chegue às indústrias de extracção de cobre e cobalto nos países vizinhos, que enfrentam crises crónicas de abastecimento.
Embora a Trafigura e a parceira de engenharia ProMarks não tenham detalhado os motivos da desistência, o mercado aponta para o desgaste institucional da multinacional. Em Janeiro de 2025, o Tribunal Penal Federal suíço condenou a empresa por corrupção em Angola, referente a subornos de 5 milhões de dólares pagos a um antigo gestor da Sonangol entre 2009 e 2011. Apesar do recurso interposto, a sentença impôs multas e indemnizações que ascendem aos 148 milhões de dólares, afectando a reputação da companhia em novos projectos de infraestruturas no país.
Projectos concorrentes ganham força
A retirada da Trafigura não trava a ambição de Angola em tornar-se um “hub” energético regional. Actualmente, dois grandes consórcios disputam o espaço:
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Meridia Energy: Uma parceria entre a Averi Finance (Dubai) e a marroquina Somagec, que planeia ligar Malanje a Fungurume (RDC), integrando Angola no Southern African Power Pool.
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HYDRO-LINK (EUA): Uma proposta norte-americana orçada em 1,5 mil milhões de dólares para um corredor de 1.200 quilómetros. Este projecto carrega um forte pilar geopolítico, sendo apoiado por Washington para contrabalançar a presença chinesa no sector mineiro congolês.
Foco contínuo no Corredor do Lobito
Fontes do sector esclarecem que este recuo não afecta a participação da Trafigura na Lobito Atlantic Railway. A empresa mantém o seu compromisso no consórcio que gere a linha férrea entre o Porto do Lobito e o Copperbelt, projecto este que continua a ser a prioridade estratégica dos investidores ocidentais para o escoamento de minerais críticos.
A lógica comercial de exportar o excedente angolano permanece válida, com analistas a preverem que o interesse institucional de mais de 3,2 mil milhões de dólares de outros investidores garantirá a execução das linhas de transmissão a médio prazo.
Fonte: Líder Magazine
