A petrolífera nacional reconhece, em relatório de contas de 2025, que é reduzida a probabilidade de reaver financiamentos concedidos à Force Petroleum Angola e à Genius, empresas ligadas, respectivamente, a Desidério Costa e ao falecido João de Matos. Valor representa impacto significativo nas contas públicas e reabre debate sobre o modelo de apoio ao empresariado.
A Sonangol admitiu, esta semana, que enfrenta dificuldades substantivas na recuperação de empréstimos concedidos a grupos privados ao abrigo da Lei do Fomento Empresarial, num sinal de que parte da estratégia adoptada pelo Estado angolano nas últimas duas décadas continua a reflectir-se nas contas da empresa pública. De acordo com o relatório e contas referente a 2025, a petrolífera considera “reduzida a probabilidade” de reaver os financiamentos atribuídos à Force Petroleum Angola e à Genius, tendo já provisionado a totalidade dos valores em dívida — um montante global próximo dos 390 mil milhões de kwanzas.
A maior exposição financeira recai sobre a Force Petroleum Angola, associada ao antigo ministro dos Petróleos Desidério Costa. A dívida ultrapassa os 205 mil milhões de kwanzas, o que representa um crescimento de 19,7% face ao exercício anterior. Em 2024, a empresa perdeu a participação de 20% no grupo empreiteiro responsável pela exploração do Bloco Sul da Zona Terrestre de Cabinda, após dificuldades no cumprimento das obrigações financeiras assumidas.
Já a Genius, ligada ao falecido general e empresário João de Matos, acumula responsabilidades superiores a 184 mil milhões de kwanzas. O grupo teve presença em sectores como a banca, mineração, construção e imobiliário, sendo apontado como um dos investidores das Torres do Carmo, actualmente pertencentes à Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG).
Este cenário não é apenas um assunto de balanços empresariais. Quando uma empresa pública como a Sonangol assume perdas desta dimensão, os efeitos podem repercutir-se na capacidade de investimento em áreas prioritárias para o país — desde a diversificação da economia até ao apoio a projectos sociais.
Em determinados casos, a petrolífera recuperou os montantes concedidos. Relatórios anteriores referem, por exemplo, a regularização integral de financiamentos atribuídos a entidades como Sonils, Aspenway e Dammer. Porém, outras operações acabaram por transformar-se em activos de difícil recuperação.
Entre os exemplos frequentemente citados surgem a Lektron Capital S.A. e a FCKS. A Lektron esteve associada ao financiamento utilizado para entrada no capital do Banco Económico, num contexto em que figuras como Manuel Vicente e Manuel Helder Vieira Dias “Kopelipa” eram apontadas como accionistas ligados à instituição bancária.
Fonte: Jornal Económico
