A Sonangol viu-se no centro de uma crise de abastecimento que se estende a todo o território angolano, depois de questões burocráticas internas terem atrasado a descarga de três petroleiros atracados no Porto de Luanda com cargas de gasolina e gasóleo. A situação, apurada pelo Valor Económico junto de fontes ligadas ao processo de descarga, veio agravar um cenário de vulnerabilidade estrutural que especialistas já antecipavam: a ausência de grandes reservas de armazenamento deixa o país exposto a choques externos e sujeito a racionamentos recorrentes.
Três navios petroleiros carregados com combustível — gasolina e gasóleo — atracaram no Porto de Luanda, mas iniciaram a descarga mais tarde do que o previsto. Ao fecho desta edição, apenas um dos três navios havia concluído o processo de descarregamento, estando os restantes ainda em curso. Segundo fontes ligadas à operação, a demora resultou de exigências burocráticas internas da Sonangol.
“Normalmente, o petroleiro vem com carta de crédito e deve necessariamente passar pelo banco após a confirmação de chegada no navio”
— Fonte ligada ao processo de descarga, citada pelo Valor Económico
A mesma fonte apontou o excesso de burocracia na Sonangol como causa directa da demora, num contexto em que qualquer atraso no ciclo de descarga tem impacto imediato na rede de distribuição nacional.
Em comunicado oficial, a Sonangol Distribuição e Comercialização não reconheceu a existência de escassez de combustível. A empresa atribuiu as longas filas nos postos de abastecimento e a falta pontual de produto ao aumento da procura gerado por especulações sobre uma eventual subida de preços.
A empresa garantiu, ainda, que existe “combustível suficiente no país para responder à procura” e adiantou ter em curso um plano de estabilização da rede de abastecimento, desenvolvido em coordenação com os diferentes operadores do sector.
Impacto no Norte, no Sul e nos Preços dos Táxis
No terreno, o panorama contradiz a versão oficial. Em todo o país — tanto no norte como no sul — registam-se longas filas de viaturas, motorizadas e recipientes como bidões e tamborões junto aos postos de abastecimento. Em algumas localidades, a escassez já alterou o preço cobrado pelos serviços de táxi.
Em Março deste ano, o Valor Económico havia antecipado exactamente este cenário, alertando para a possibilidade de escassez entre Abril e Maio e para o modo de racionamento que poderia ser adoptado pelas autoridades, face à morosidade no ciclo de navios e à limitada capacidade de armazenamento do país.
A Fragilidade Estrutural por Detrás da Crise
Especialistas do sector alertam que o problema não se resume ao episódio pontual dos três petroleiros. Em média, atracam três navios por semana — mas o país carece de infraestruturas de reserva suficientes para amortecer eventuais atrasos ou interrupções no fornecimento.
O Terminal Oceânico da Barra da Dande (TOBD), operado pela Sonangol, dispõe de 16 tanques com capacidade total de 582.000 m³ — divididos entre 320.000 m³ de gasóleo, 160.000 m³ de gasolina e 102.000 m³ de GPL. Contudo, essa capacidade não permite ao país manter reservas estratégicas que o protejam em caso de interrupção no fluxo de navios.
A refinaria de Luanda, alvo de investimentos na reestruturação para aumentar a produção, continua a não dar resposta sequer às necessidades da capital. No primeiro trimestre deste ano, a produção registou uma queda abrupta, garantindo apenas 15 por cento dos derivados consumidos em Luanda.
Fonte: Valor Económico
